sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Histórias de Cordeirinho

Seu Batistela e os óculos redondos

São José do Cordeirinho, Minas Gerais. 3 de fevereiro de 2002

Num casebre simples da rua Rio Grande do Sul mora o Seu Batistela. Desde 1953, o simpático senhor de 72 anos fabrica óculos artesanalmente. Por décadas a lojinha que ele mantinha em sua casa fez sucesso entre consumidores de todas as idades. Os óculos vendidos ali, todos redondos e cheios de detalhes, como o B dourado na haste, eram verdadeiras obras de arte, apreciadas por todo tipo de consumidor, desde o mais simples empregado até o prefeito da cidade. Aqueles eram bons tempos...
Então, em 1989 abriu, no centro da cidade, a Ótica Havaí. Seus óculos, mas modernos e de designs diferentes, atraíram a maioria dos consumidores de Seu Batistela. Em pouco tempo, o velho fabricante só faturava o suficiente para manter sua lojinha aberta. O golpe final veio no início dos anos 90, quando o presidente do Brasil decidiu reter o dinheiro que as pessoas tinham no banco, obrigando Seu Batistela a fechar seu comércio.
Durante quase uma década, Seu Batistela e sua esposa, Dona Clara, viveram às custas das aposentadorias, dos reparos de de lentes e armações e dos doces que ela vendia. Raramente, ele fabricava seus charmosos óculos e quando o fazia, ou era para mandar de presente para um velho amigo, ou era para guardá-lo como recordação de uma época que o trabalho manual e cuidadoso de uma pessoa era mais valorizado que o trabalho repetitivo e automático de uma máquina.
Então, naquele dia de fevereiro de 2002, Seu Batistela estava em sua sala polindo a lente do primeiro óculos que ele fez quando a campainha tocou. "Deixa que eu atendo" disse Dona Clara caminhando até a porta. Segundos depois, entraram na sala, além da senhora, uma mulher e seu filho, que ele sempre via brincando na praça que ficava na frente de sua casa.
"Bom dia, Seu Batistela, o senhor ainda fabrica óculos?"
"Para dizer a verdade, não os fabrico há muito tempo. Mas se a senhora fizer um pedido, eu faço."
"Então o senhor pode fazer um para o Pedro?" perguntou a mulher, com as mãos nos ombros do filho.
Surpreso com o pedido, ainda mais para uma criança, Seu Batistela coçou sua careca e disse que fabricava. Naquela semana, mais três pedidos de seus óculos redondos para crianças foram feitos e nas semanas seguintes mais gente, até mesmo de cidades vizinhas fizeram encomendas.
Seu Batistela estava feliz, de um jeito que não ficava havia quase 15 anos. Reabriu a lojinha e todas as crianças usuárias de óculos levavam seus pais pedindo pelos óculos redondos. O senhor não entendia o repentino interesse das crianças pelos óculos - duas até pediram sem lentes - muito menos porque alguns pais comentaram sobre um tal bruxo.
Então, num dia frio de abril, ele estava caminhando por uma importante avenida da cidade quando viu algo na vitrine da livraria O Farol que chamou sua atenção. Havia alguns livros cuja capa tinha o desenho de um menino usando óculos redondos, iguaizinhos àqueles que ele fabricou por décadas e entendeu o repentino interesse das crianças pelo produto. Muito grato, Seu Batistela sorriu e agradeceu ao personagem, que nunca ouvira falar na vida, por ter salvo sua lojinha de óculos.

Lucas C. Silva

4 comentários:

Welker Carvalho disse...

Gostei muito do texto

=D

MaxReinert disse...

hehehhe..... e quem disse que o a cultura pop não interfere no cotidiano das pessoas mais simples.... taí um ótimo exemplo!

Dona Moça disse...

Dá-lhe Harry Potter!

^^

Seu Batistela existe mesmo?

Dona Moça disse...

Engenheiro ou Dentista?
Nó..

Bom, pelo menos você arranjou um que eles não reclamam..
SORTE A SUA!
Mas você gosta?

Só sei que enquanto isso, eu vou levando o curso..
Já tô na metade e desde o início é essa ladainha, rs!

Eu também quero que seja assim, só posso querer..
Passei em Filosofia no começo do ano e perdi a data de matrícula..
=(

Saudações atleticanas, moço!

^^