sexta-feira, 31 de maio de 2013

Rezando...

Dez anos atrás, o Atlético jogava contra um time. Não lembro qual era. Não lembro quanto estava. Lembro que tava difícil para o Atlético, que ia resistindo ao ataque adversário com raça, mantendo o empate. No auge do meu desespero olhei pra cima e rezei. Pedi a Deus para que ajudasse o Galo a parar os ataques. Dois minutos depois, o adversário marca um gol, que sela sua vitória.

Passados os anos, a história se repetiu. Apreensão, pressão adversária, medo. Reza e derrota do Atlético. Até que chegou um dia que cansei. Parei de rezar. Pedia em pensamento pro adversário errar, pro juiz marcar a falta, pro Atlético marcar, mas não incomodava mais Deus com esses pedidos pequenos. Ele já tem tanta preocupação na cabeça, guerras, pessoas precisando de prêmios de loteria, doenças, intolerância religiosa... Tanta coisa mais importante aí acontecendo, eu não sentia o direito de enchê-Lo com pedidos de gols.

E assim os anos passaram. Chegamos ao Brasileirão de 2012 e eu fui assistindo aos jogos, vendo o Atlético se aproximar cada vez mais de um título que não conquista há quatro décadas. Fui vendo o time avançar, para, mais uma vez, morrer na praia. Nas vitórias ou nas derrotas, nos momentos de maior alegria e de maior tristeza, não rezei. Não ocupei Deus com meus pedidos pequenos. Continuava não achando justo.

O Fluminense foi campeão brasileiro. O Atlético conquistou a vaga na Libertadores após 13 anos. E assim começou 2013. Galão da Massa ganhando fácil de uns, passando aperto contra outros, tropeçando contra o São Paulo, acabando com a falsa esperança tricolor. O time foi se agigantando, reconquistando o respeito perdido, chamando atenção de tudo e todos. Até que surgiu uma pedra mexicana no meio do caminho.

O Tijuana, time com sete anos de existência, se aproveitou do gramado sintético e ia dando um chocolate no Atlético. 2 a 0, fora o baile. O novato ia eliminando mais um brasileiro, ia garantindo um resultado complicadíssimo para o time de melhor campanha da competição. Chegou um momento que olhei pra cima. Pensei em rezar. Me segurei. O Atlético começou a jogar. Marcou um, marcou dois. Empatou, trouxe a decisão para Belo Horizonte...

Era aquela, caiu no Horto, tá morto!

A gente não queria admitir, mas sabia que passaria fácil pelo Tijuana. Se goleamos o tri-campeão mundial São Paulo no Horto, por que não golearíamos o Tijuana? Pois é... os Xolos iam dominando o jogo, matando os ataques atleticanos, passando a bola bonito, avançando, chegando perto do gol, marcando. 1 a 0 pra eles. Atlético batendo cabeça. Num belo gol, meu maior ídolo no time atual, Réver, conseguiu o empate. O Atlético parecia que acordava para o jogo. Só impressão.

No segundo tempo, o Tijuana dominou a partida. Nem parecia que jogavam no Horto. Pensei que o jogo fosse no México, na grama sintética, onde quem estava morto era o dono do Horto. Cada ataque mexicano era venenoso, mortal. Cada erro atleticano era uma pontada no coração. E nada do relógio passar. Até que aos 46 do segundo tempo, o atacante do Tijuana recebeu a bola sozinho na área. E, tal qual um ator de novela mexicana de terceira categoria, se jogou ao perceber a aproximação do zagueiro atleticano. O juiz chileno, talvez com a cabeça nos Andes, talvez pensando na centolla que poderia estar comendo em Santiago, talvez se lembrando com saudade do Cerro Sán Cristóbal, enxergou pênalti. E marcou.

E ali acabava mais uma Libertadores para o Atlético. E ali começava o foguetório cruzeirense. E ali começava o "eu já sabia" fluminense. Os abutres da imprensa paulista voaram em círculos cada vez menores. O Atlético mais uma vez nadava, nadava, nadava e morria na praia. Como em 1977, como em 1980, como em 1999, 2001, 2009 e 2012. Tal qual 1981, perdíamos a Libertadores para a arbitragem.

Era injusto! Por mais que o Tijuana tivesse jogado melhor e até merecesse a vitória, era injusto o Galo cair assim. Injusto pela campanha brilhante na primeira fase. Injusto por essa torcida, formada em grande parte por gente que nunca viu o time vencer um grande título. Injusta pelo trabalho do Cuca, que tirou o time do rebaixamento e o colocou onde está hoje.

Não tinha mais nada a perder. Quando os jogadores cercaram o juiz, olhei para cima. Quando o árbitro não voltou atrás, comecei a rezar. Quando a bola foi colocada na marca do pênalti, continuei rezando. O atacante adversário tomou distância, rezei. O Réver falou algo no ouvido dele, rezei. O atacante correu, rezei. O atacante bateu na bola, rezei.

(Foto: Reuters)
Depois de dez anos, no momento que mais precisei, minhas preces futebolísticas foram ouvidas. Obrigado, Senhor!

4 comentários:

Pablo Djuric disse...

Parabéns! Perfeito! Refletiu o sentimento da Massa! Chorei no final e toda vez que eu ver como alguém rezou pedindo esse milagre vou chorar!

Caio Ducca disse...

Parabéns pelo seu texto, Lucas.
Você não imagina como ficamos no Independência, momentos antes da cobrança. Nunca vi tanta gente chorando assim. Parecia que nossa vida, coletiva e de cada um, estava fadada a ser uma merda, sempre. Para você ter uma ideia, a torcida estava tão acachapada que não conseguia sair do estádio após o jogo. Ficava lá, parada, enxugando as lágrimas, cantando baixinho. Um velhinho da Charanga passou mal, teve de ser atendido. Foi um destes momentos históricos que...Bem, vou ser óbvio,mas não tem outro jeito: SÓ MESMO O NOSSO GALO!

Leandro Lima disse...

So vi o finalzinho do jogo, mas nem eu consegui assistir o penalti,pq ate eu fiquei nervoso com esse trem haha.
Mas engraçado q na hora do penalti, na Fox Sports cortaram pra cara do Vitor logo depois. Apareceu e eu pensei na hora "velho,esse maldito vai defender o penalti ,vo nem ver entao, olha a cara dele". Não deu outra! haha
Foi bacana, bonito até, mas foram salvos mesmo pelo Vitor! E pelo Rever, q ainda fez cagada e foi expulso depois que o jogo acabou,prejudicando bastante vcs contra o Newells, que é BEM mais time que o Galo, e se vcs jogarem contra eles la, o que jogaram contra o Tijuana naquele primeiro tempo e ontem, sei não viu, só passa com muita sorte - e por sorte, vcs tao com muita esse ano!

mas foi bacana ver a euforia da torcida! hehe

Nando Vianna disse...

Emocionante como o jogo! Parabéns Lucas pelo texto brilhante!!